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2 de outubro de 2026

A herança












Depois que morreu,
virou homem bom.
Lavaram seus pecados.
Enfeitaram o retrato.
A morte sabe maquiar.

Eu fiquei com as sombras.
Vi o que ninguém viu.
Ouvi portas fechadas.
Guardei palavras mortas.
A memória não perdoa.

Então vieram os abutres.
Vieram com lagrimas falsas.
Trouxeram papéis.
Mediram a casa.
E chamaram isso de família.

Pedir minha parte
foi virar demônio.
Meu nome ganhou chifres.
Minha voz virou pecado.
E o sangue perdeu o nome.

Hoje, diante do retrato,
não sei quem morreu.
Talvez ele. Talvez eu.
Lá fora, os abutres esperam.
E dentro da moldura,
alguém ainda sorri.

Daniel André. 

6 comentários:

  1. Oi, André! Rapaz que poema magnífico este. Há quem só dê algum valor depois que seu perde ou parte pra sempre, não é mesmo? Há tantas camadas nesse poema que como o título sugere a herança faz parte daquilo que somos, embora nem sempre queremos a herança que nos deixaram. Um abraço amigo André.

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  2. Daniel, maravilha teu poema e recheado de verdades que tantas vezes vemos acontecer!
    abraços, tudo de bom,chica

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  3. Como vai Daniel, tudo bem? É maravilhoso poder ler mais dos dos seus lindos poemas, sempre tão bem construídos!!
    Esse é um tema sensível: geralmente depois da morte o homem que partiu vira quase um "santo" mesmo tendo em vida aprontado as piores coisas na vida das pessoas.. Mas a herança deixada poderá trazer conflitos infinitos ...
    Abraços e um ótimo final de semana!

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  4. Boa tarde Daniel
    Um poema forte e muito humano, que fala de memória, hipocrisia e das feridas que ficam depois da morte.
    Gostei particularmente da forma como os “abutres” representam aqueles que aparecem quando já não há voz para os contrariar.
    Um texto intenso, que deixa uma pergunta inquietante no fim: afinal, quem morreu ,ele ou quem ficou?
    Bom fim-de-semana com paz e saúde.
    :)

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  5. Meu querido amigo Dan,
    Para muitas famílias a morte não é um fim, mas o início de uma disputa acirrada pelo espólio de quem partiu. E todos são santificados quando morrem, talvez seja para amenizar os malfeitos em vida. O seu poema escancara toda essa hipocrisia da sociedade, os abutres em volta da carniça sedentos pelo dinheiro e pelos bens. Aproveito para chamar o amigo ao meu blog, tem novas postagens pra você ver.
    Um abraço!

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  6. Infelizmente hoje em dia o problema das heranças virou uma violência.
    Um poema muito realista.
    Tudo e bom.
    Um beijo.

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Agradeço a sua visita e comentário. Abraços, Dan.