Quem sou eu

Minha foto
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brazil
Vou mostrando como sou, e vou sendo como posso. Insta: @danielrprj

14 de julho de 2026

O santo bateu


 












Às seis da manhã,
até os raios de sol
bocejavam atrás das árvores.

Sentei ao lado de uma mulher
num banco de ônibus
e a viagem resolveu conversar.

Falamos de discos antigos da MPB,
de novelas que ainda moram na memória,
de astrologia,
de incensos que perfumam silêncios,
das dores que cada um aprende
a carregar sem alarde.

Também perguntamos
quem somos nós
nessa imensidão
que nem desconfia do nosso nome.

O ponto dela chegou.

Antes de descer,
deixou um beijo no meu rosto
e sorriu:

— Nosso santo bateu.
Isso é energia boa.

O ônibus seguiu.

E eu descobri
que há manhãs
em que o destino
compra passagem
só para lembrar
que dois desconhecidos
também podem florescer
por alguns quilômetros.

Daniel André.

5 de julho de 2026

Cinco de julho

 

Acordei antes do sol,
para convidar o dia
A comemorar o cinco de julho.
- Meu aniversário.

Bati um bolo de laranja.
Depois varri a calçada,
enquanto as vizinhas temperavam
o almoço de domingo com suas prosas.

Não esperei visitas.
Algumas datas florescem melhor
quando a gente é a própria companhia.

Preparei meu café,
meu almoço,
meu lanche.

E, se você me perguntar
quem soprou a vela invisível daquele dia,
eu digo baixinho:

foi o homem que, enfim,
aprendeu a se presentear
com o raro costume
de gostar da própria existência.

Daniel André


30 de junho de 2026

Terremoto da empatia morta

 










Cantam as arquibancadas.
A noite veste bandeiras.
Mas a terra, em silêncio,
recolhe seus filhos.

Há taças erguidas ao céu
e mãos vazias sob os escombros.
Enquanto a glória sorri,
a dor aprende a esperar.

Que vitória resiste
ao pranto de uma criança?
Que hino supera
o silêncio dos ausentes?

A montanha abriu o peito.
As pedras disseram adeus.
E o vento levou consigo
os nomes que ainda chamavam.

Não condeno a alegria.
Condeno o esquecimento.
Toda festa perde o brilho
quando ignora a ferida do outro.

O maior terremoto, porém,
não rompe montanhas nem mares.
Nasce no coração humano
quando deixa de sentir.

Daniel André

24 de junho de 2026

Chuva de inverno












 


Amanheceu chovendo devagar,
vi o céu regando alguns esquecimentos.
A terra soltou seu perfume de bicho feliz,
e eu ouvi o quintal respirar.

O lírio-da-paz vestiu gotas de amor,
as samambaias pentearam a água com suas mãos verdes.
Passarinhos costuravam cantos na garoa,
remendando alegria em minha vida.

O outono foi embora pela porteira do vento,
e chega o inverno com cheiro de fogão aceso,
pamonha, milho e canjica.
Amanheceu e a chuva, continuou escrevendo infância.

Daniel André

19 de junho de 2026

Junho



O frio acendeu seus passarinhos na fogueira,
e a noite vestiu remendos de estrela.
Na roça, o milho rezava seu ouro manso,
enquanto teu nome amadurecia no vento.
Eu te amei colhendo em silêncio,
e com as mãos cheias de terra e lua.

A sanfona derramava caminhos no escuro,
e os balões sonhavam alturas impossíveis.
Teu riso tinha cheiro de café coado,
e aquecia mais que qualquer brasa.

Junho me disse que o amor acontece
igual orvalho pousando devagar na relva.
Ele chega com seus casacos de saudade,
e deixou teu abraço morando em mim.
As estrelas estalaram como lenha antiga,
e o céu virou varanda para nossos desejos.
Desde então, toda festa junina é lembrança:
um coração dançando quadrilha dentro do outro.

Daniel André

6 de junho de 2026

Do Último Andar

 

Do ultimo andar, ele acende outro cigarro.
A lata de cerveja sua na mão da tarde.
A cidade passa devagar sob seus olhos cansados.
Na praça, as senhoras espalham ração entre os bancos.
Os gatos surgem das sombras, magros e atentos.
Há uma ternura antiga naquele ritual sem plateia.
O porteiro da escola observa tudo.
Encostado ao portão azul, guarda o movimento da rua.
Nos seus olhos mora um respeito silencioso.
As senhoras nem percebem.
Continuam repartindo afeto em pequenos punhados.
Os gatos recebem o mundo sem fazer perguntas.
As crianças chegam aos poucos.
Algumas correm. Outras arrastam mochilas maiores que os sonhos.
Todas sorriem ao encontrar o porteiro na entrada.
Ele sabe os nomes, os atrasos, as tristezas.
Lá do alto, o homem do cigarro vê a cena inteira.
E por um instante a cidade parece merecer mais um dia.


Daniel André.

2 de junho de 2026

Por Que É Proibido Gostar de Flores?


 











Gostar de flores é fraqueza.
Foi isso que ensinaram.
Homens não se encantam.
Homens apenas suportam.

Não olhe o céu por muito tempo.
Não escreva poemas.
Não chore na despedida.
Não demonstre afeição.

A dureza virou uniforme.
O silêncio, obrigação.
Cada sentimento escondido
recebeu o nome de vergonha.

Mas eu gosto das flores.
Da chuva nas janelas.
Do perfume das manhãs.
E da beleza das coisas simples.

Gosto de abraços demorados.
De palavras sinceras.
De lembrar quem partiu.
E de sentir saudade.

Então me chamem de estranho.
Prefiro essa condenação.
Pois pior que amar flores
é viver sem encantação.

Daniel André

24 de maio de 2026

O dissidente


 













Sonhei que acordava num mundo programado,
Onde o pensar já vinha formatado,
Homens de espelhos, sorrisos fabricados,
Corações rendidos a desejos moldados.

Havia templos erguidos no medo,
Vendendo paraísos ao preço do apego,
Corpos moldados por regras de aceitação,
Almas vazias pedindo aprovação.

Corriam cegos pela ascensão social,
Trocando a essência por brilho artificial,
Repetiam discursos em fervor mecânico,
Como máquinas servindo um futuro tirânico.

Andei sozinho entre vitrines e correntes,
Enfrentando vozes frias e persistentes,
Recusei as formas impostas pelo rebanho,
Mesmo tratado como erro ou estranho.

E quanto mais negava os padrões daquela terra,
Mais crescia uma silenciosa guerra,
Pois fugir do que domina deixa cicatriz,
A liberdade tem espinhos antes da raiz.

Rompi o sonho, ou talvez a prisão,
E vi o cárcere escondido na aceitação,
De viver sem nunca a si pertencer,
Então escolhi perder-me para me conhecer.

Daniel André

27 de abril de 2026

Vilões e heróis

















 

Somos vilões nas histórias de alguém
E heróis nos contos de outros
Às vezes anjos em lembranças suaves
E demônios em narrativas duras
Em cada memória deixamos um traço
Alguém nos pinta em tons duros
Outro nos guarda em luz suave
Não há fuga disso
Nem escolha que nos livre
Nem gesto que agrade a todos
A vida nos escreve em versões
E cada olhar muda a tinta
Até quem lê Drummond
E quem respira Lispector
Carrega contradições silenciosas
Em algum capítulo erramos
Em outro fomos abrigo
Somos personagens instáveis
Narrativas que se dobram
Vistos por olhos diferentes
Seguimos sem controle do enredo
E ainda assim seguimos escrevendo
Pois muitas vezes o demônio
É só quem ousou dizer NÃO!

Daniel André

26 de abril de 2026

Dois santos

 


Não dormi esta noite.
A madrugada rangia como porta antiga.
O teto respirava lento.
Eu contava passos que não dei.
O dia nasceu por frestas.
Um balão pairava como um coração esquecido.
Parado, e ainda assim viajando.
As maritacas riscaram o ar em gargalhadas verdes.
Fizeram do céu um quintal.
Eu, descrente, aprendi o silêncio.
Não creio em deuses, acho interessantes.
Mas guardo dois nomes como fósforos.
Santo Expedito, pressa de milagre.
São Jorge, lâmina contra dragões íntimos.
O balão era um ouvido de vento.
Nele depositei pedidos sem voz.
Pedras viraram sementes na língua.
A manhã abriu o peito da cidade.
E o ar levou minhas dúvidas como pipa solta.
Fiquei ali, pequeno, esperando o alto responder.

 

Daniel André

4 de abril de 2026

Amor com canções


 














Eu cheguei
Com o disco da Ângela Ro Ro debaixo do braço
e uma margarida amarela
que rezava na minha orelha.
 
As mãos nos bolsos
guardavam mais que silêncio:
era medo fazendo ninho,
era o peito aprendendo a esperar.
 
Havia no ar o tremor escondido
de quem finge calma
mas já se entregou por dentro.
 
E as canções,
mais sábias que eu,
já diziam baixinho:
amar é esse susto doce,
pedindo licença
pra ficar.
 
Daniel André

28 de janeiro de 2026

O Cãozinho Orelha

 









Orelha
era um pedaço de manhã
correndo pelo quintal.

Não sabia da maldade
porque só aprendia afeto.
Abanava o mundo
com o rabo.

Mataram um ser
que só conhecia alegria.
Foi um erro contra a vida
e contra a infância do dia.

Os bichos
são feitos de amor sem defesa.
Quando um cai,
o chão chora
e a humanidade
fica menor.

Esqueceram
que um cão
carrega no peito
a parte mais limpa do humano
que não existe mais.
 
Daniel André 

25 de janeiro de 2026

Chuva de verão

 











Chove de repente,
chuva que não pede licença.

Um homem sozinho
aprende a gostar do barulho
que a água faz nas coisas pequenas.

Guarda um desejo
sem endereço certo:
um amor que chegue
feito flor entregue sem motivo.

Gosta de receber flores
porque elas não perguntam nada.
Apenas ficam.

No fim de tarde de domingo
o céu amolece,
a chuva descansa
e o homem também.

Ele sabe que amar
é esperar com delicadeza
enquanto o mundo molha

Daniel André

17 de janeiro de 2026

Saudade


A saudade
é um resto de tempo
que não aceitou ir.

Guardo-a
junto das coisas inúteis:
um botão sem camisa,
um nome sem voz,
um azul
que o mar esqueceu em mim.

O tempo passa
como passam os rios:
fingindo que não voltam.

Mas há tardes
em que ele senta
no quintal do peito
e fica.

Fica porque quer.

E eu deixo.

Porque algumas ausências
sabem mais de nós
do que a presença.


Daniel André