Não dormi esta noite.
A madrugada rangia igual porta antiga.
O teto respirava lento.
Eu contava passos que não dei.
O dia nasceu por frestas.
Um balão pairava como um coração esquecido.
Parado, e ainda assim viajando.
As maritacas riscaram o ar em gargalhadas verdes.
Fizeram do céu um quintal.
Eu, descrente, aprendi o silêncio.
Não creio em deuses, mas acho interessantes.
Mas guardo dois nomes como fósforos.
Santo Expedito, pressa de milagre.
São Jorge, lâmina contra dragões íntimos.
O balão era um ouvido de vento.
Nele depositei pedidos sem voz.
Pedras viraram sementes na língua.
A manhã abriu o peito da cidade.
E o ar levou minhas dúvidas como pipa solta.
Fiquei ali, pequeno, esperando o alto responder.
Daniel André