No fundo do Brasil
a alma nasce do chão.
Capim vira reza.
Folha vira perdão.
E a gente aprende
que cura tem cheiro.
Alecrim acorda o corpo
manjericão espanta sombra
arruda vigia a porta, e
o saber não sobe
ele brota de dentro da mata.
Nas varandas de barro
as mãos sabiam antes.
Guiné tilintava na palma
hortelã sopra leveza
e a carne obedecia
ao gesto antigo das folhas.
Nos caminhos de terra
a lembrança se acende.
Folhas que viram conselho
erva-cidreira embala silêncio
erva-doce adoça tristeza,
e o Brasil respira por raízes.
Cada planta
é um pedaço de língua.
Um segredo antigo.
Malva sussurra respostas.
Babosa costura pele partida.
E o corpo entende antes da cabeça.
No fim das contas
o mato sabe mais de nós
do que nós mesmos.
A cura mora ali
simples, verde, ancestral.
E nós só precisamos ouvir o chão.
— Daniel André