Do ultimo andar, ele acende outro cigarro.
A lata de cerveja sua na mão da tarde.
A cidade passa devagar sob seus olhos cansados.
Na praça, as senhoras espalham ração entre os
bancos.
Os gatos surgem das sombras, magros e atentos.
Há uma ternura antiga naquele ritual sem plateia.
O porteiro da escola observa tudo.
Encostado ao portão azul, guarda o movimento da rua.
Nos seus olhos mora um respeito silencioso.
As senhoras nem percebem.
Continuam repartindo afeto em pequenos punhados.
Os gatos recebem o mundo sem fazer perguntas.
As crianças chegam aos poucos.
Algumas correm. Outras arrastam mochilas maiores que os sonhos.
Todas sorriem ao encontrar o porteiro na entrada.
Ele sabe os nomes, os atrasos, as tristezas.
Lá do alto, o homem do cigarro vê a cena inteira.
E por um instante a cidade parece merecer mais um dia.
Daniel André.
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