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Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brazil
Vou mostrando como sou, e vou sendo como posso. Insta: @danielrprj

30 de junho de 2026

Terremoto da empatia morta

 










Cantam as arquibancadas.
A noite veste bandeiras.
Mas a terra, em silêncio,
recolhe seus filhos.

Há taças erguidas ao céu
e mãos vazias sob os escombros.
Enquanto a glória sorri,
a dor aprende a esperar.

Que vitória resiste
ao pranto de uma criança?
Que hino supera
o silêncio dos ausentes?

A montanha abriu o peito.
As pedras disseram adeus.
E o vento levou consigo
os nomes que ainda chamavam.

Não condeno a alegria.
Condeno o esquecimento.
Toda festa perde o brilho
quando ignora a ferida do outro.

O maior terremoto, porém,
não rompe montanhas nem mares.
Nasce no coração humano
quando deixa de sentir.

Daniel André

24 de junho de 2026

Chuva de inverno












 


Amanheceu chovendo devagar,
vi o céu regando alguns esquecimentos.
A terra soltou seu perfume de bicho feliz,
e eu ouvi o quintal respirar.

O lírio-da-paz vestiu gotas de amor,
as samambaias pentearam a água com suas mãos verdes.
Passarinhos costuravam cantos na garoa,
remendando alegria em minha vida.

O outono foi embora pela porteira do vento,
e chega o inverno com cheiro de fogão aceso,
pamonha, milho e canjica.
Amanheceu e a chuva, continuou escrevendo infância.

Daniel André

19 de junho de 2026

Junho



O frio acendeu seus passarinhos na fogueira,
e a noite vestiu remendos de estrela.
Na roça, o milho rezava seu ouro manso,
enquanto teu nome amadurecia no vento.
Eu te amei colhendo em silêncio,
e com as mãos cheias de terra e lua.

A sanfona derramava caminhos no escuro,
e os balões sonhavam alturas impossíveis.
Teu riso tinha cheiro de café coado,
e aquecia mais que qualquer brasa.

Junho me disse que o amor acontece
igual orvalho pousando devagar na relva.
Ele chega com seus casacos de saudade,
e deixou teu abraço morando em mim.
As estrelas estalaram como lenha antiga,
e o céu virou varanda para nossos desejos.
Desde então, toda festa junina é lembrança:
um coração dançando quadrilha dentro do outro.

Daniel André

6 de junho de 2026

Do Último Andar

 

Do ultimo andar, ele acende outro cigarro.
A lata de cerveja sua na mão da tarde.
A cidade passa devagar sob seus olhos cansados.
Na praça, as senhoras espalham ração entre os bancos.
Os gatos surgem das sombras, magros e atentos.
Há uma ternura antiga naquele ritual sem plateia.
O porteiro da escola observa tudo.
Encostado ao portão azul, guarda o movimento da rua.
Nos seus olhos mora um respeito silencioso.
As senhoras nem percebem.
Continuam repartindo afeto em pequenos punhados.
Os gatos recebem o mundo sem fazer perguntas.
As crianças chegam aos poucos.
Algumas correm. Outras arrastam mochilas maiores que os sonhos.
Todas sorriem ao encontrar o porteiro na entrada.
Ele sabe os nomes, os atrasos, as tristezas.
Lá do alto, o homem do cigarro vê a cena inteira.
E por um instante a cidade parece merecer mais um dia.


Daniel André.

2 de junho de 2026

Por Que É Proibido Gostar de Flores?


 











Gostar de flores é fraqueza.
Foi isso que ensinaram.
Homens não se encantam.
Homens apenas suportam.

Não olhe o céu por muito tempo.
Não escreva poemas.
Não chore na despedida.
Não demonstre afeição.

A dureza virou uniforme.
O silêncio, obrigação.
Cada sentimento escondido
recebeu o nome de vergonha.

Mas eu gosto das flores.
Da chuva nas janelas.
Do perfume das manhãs.
E da beleza das coisas simples.

Gosto de abraços demorados.
De palavras sinceras.
De lembrar quem partiu.
E de sentir saudade.

Então me chamem de estranho.
Prefiro essa condenação.
Pois pior que amar flores
é viver sem encantação.

Daniel André