Depois que morreu,
virou homem bom.
Lavaram seus pecados.
Enfeitaram o retrato.
A morte sabe maquiar.
Eu fiquei com as sombras.
Vi o que ninguém viu.
Ouvi portas fechadas.
Guardei palavras mortas.
A memória não perdoa.
Então vieram os abutres.
Vieram com lagrimas falsas.
Trouxeram papéis.
Mediram a casa.
E chamaram isso de família.
Pedir minha parte
foi virar demônio.
Meu nome ganhou chifres.
Minha voz virou pecado.
E o sangue perdeu o nome.
Hoje, diante do retrato,
não sei quem morreu.
Talvez ele. Talvez eu.
Lá fora, os abutres esperam.
E dentro da moldura,
alguém ainda sorri.
Daniel André.