Abro os olhos:
a manhã se inventa devagar.
Rego plantas, deixo a casa
e largo um pedaço de mim.
Na rua, a lua insiste,
abelhas rabiscam o ar,
o cheiro de mel
me lembra que o mundo ainda tenta.
No café, falam de futebol.
— O Flamengo venceu
milagre doméstico
que sustenta conversas e sobrevivências.
Tião anuncia manchetes pesadas.
A violência repete seus versos,
mas o dia, teimoso,
segue sem pedir desculpas.
Crianças brincam na esquina:
metade riso, metade lágrima.
A vida sempre divide
o que a gente tentaria guardar inteiro.
Vejo espertos demais,
que acreditam controlar o mundo,
e artistas de rua
que criam para não desaparecer.
Mesmo assim, a bondade
lateja onde ninguém vê:
gestos miúdos,
corações que acendem sombra.
O dia corre, cansado.
Eu corro com ele.
À noite, deito minhas pernas
e meu resto de esperança.
saudade e amor me observam,
e uma estrela distraída
me vigia.
— Daniel André
