A noite sangra em meu vasto território,
tingindo o ar com o breu do mistério,
na floresta de silêncios e memórias,
meus olhos brilham, farol etéreo.
Corro com a irmã lua no firmamento,
em liberdade que as corujas partilham,
dispenso a alcateia e seu fingido alento
prefiro as cicatrizes que me brilham.
Sou canis lúpus, lenda sem fronteira,
o alfa da dor, o rei da resistência,
farejo o perfume da presa inteira
e cravo os dentes na doce inocência.
Minhas garras gravam versos na pedra,
meus pelos ao vento pressentem ciladas;
mais traiçoeiro que a armadilha humana
é o amor com suas garras delicadas.
Uivo alto, feroz, sobre o vale em torpor,
desfaço o silêncio, marco o terreno,
e chamo por ti, desejo em ardor
que sinta meu canto, selvagem e pleno.
