O abajur vermelho tingia a sala
num sossego de veludo.
Dois corpos descansavam
no acolhimento mudo
de um silêncio que sabia tudo.
A paixão soprava leve,
quase brisa de jazz.
Os gestos falavam sozinhos,
ritmo tímido e sincopado,
afinando o instante sem esforço.
O ambiente, meio blues,
guardava a rouquidão do tempo.
Como filme antigo sem falas,
onde o toque é a trilha
e a ternura resolve o resto.
A noite ia embora devagar.
Sonhos esbarravam em luz dourada,
e Fitzgerald, baixinho,
costurava no ar
o amor que dispensa explicações.
Daniel André 2014