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Vou mostrando como sou, e vou sendo como posso. Insta: @danielrprj

21 de novembro de 2025

O poder das ervas




















A alma do Brasil nasce do chão.
Capim vira reza.
Folha vira perdão.
E a gente aprende
que cura tem cheiro.

Alecrim acorda o corpo
manjericão espanta sombra
arruda vigia a porta, e
o saber não sobe 
ele brota de dentro da mata.

Guiné na palma da mão
o hortelã sopra leveza
e a carne obedece
ao gesto antigo das folhas.

o verde vira conselho.
erva-cidreira embala silêncio
erva-doce adoça tristeza,
e o Brasil respira por raízes.

Cada planta
é um pedaço de língua.
Um segredo antigo.
Malva sussurra respostas.
Babosa costura pele partida.
E o corpo entende antes da cabeça.

No fim das contas
o mato sabe mais de nós
do que nós mesmos.
A cura mora ali 
simples, verde, ancestral.
E nós só precisamos ouvir o chão.

— Daniel André

16 de novembro de 2025

O feitiço das folhas

No sebo da tarde chuvosa,
cada livro me chama baixinho,
como abraço oferecendo abrigo.

Folheio páginas que já foram
paisagens na mente de alguém 
segredos guardados no silêncio
de dedos que ali passaram.

O cheiro antigo ascende,
mistura de tempo, poeira e café,
e tudo se harmoniza docemente:
a chuva no vidro,
a xícara morna,
e eu, perdido
nesse feitiço das folhas
que nunca termina
de me ler.

Daniel André

3 de novembro de 2025

Soneto de Finados

 







A chuva caía, lenta, quase em prece,
pingos pequenos sobre o campo frio.
Tantos já se foram, e o tempo tece
silêncios longos no jardim vazio.

Nessa viagem que é a vida, resta
o eco tênue do que foi presença.
Aqui só me resta, e nada mais resta 
lembranças nuas, frágeis como a ausência.

Administro o oceano de saudades,
sem bússola, remando em densas tardes.
A chuva insiste, e o vento a desfaz.

E nessa dor que o tempo disfarçava,
a alma aprende, tarde, que amava.
E chove. E é paz.

Daniel André