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Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brazil
Vou mostrando como sou, e vou sendo como posso. Insta: @danielrprj

27 de setembro de 2025

Sábado no Salão

 












No sábado o salão ganha alegria,
um coro de risadas se levanta,
secadores sopram como sinfonia,
cada mulher se enfeita e se encanta.

Minha mãe se ilumina em harmonia,
na cor que aos poucos brilha e se adianta,
e o tempo, que parecia correria,
se faz suave, doce e até se espanta.

Um cortejo de mulheres, cada uma,
descobre no espelho a própria luz,
a beleza que em riso se perfuma.

E eu, calado à parte, vejo o que seduz:
é como ver dançar a clara espuma
do mar que em ondas a vida conduz.


Por Daniel André

21 de setembro de 2025

Círculo de Névoas

 

No berço do tempo o fim se faz começo,
a infância dá à velhice a sua mão.
O riso do menino é tênue ingresso,
o velho ri sem ter mais explicação.

Ambos pedem colo, iguais no tropeço,
nas névoas do escuro buscam proteção.
Envelhecer é desenhar no ar o traço
que a infância rabiscou no coração.

O sopro do Alzheimer apaga o nome,
como vela apagada em aniversário,
e no velório igual, a luz consome.

Mas resta uma centelha em breve relicário:
nascer e morrer se tocam — doce fome,
círculo eterno, destino necessário.

 

Por Daniel André

16 de setembro de 2025

Gemada de Mãe

 














Homem de ferro,
ombros largos,
coração pesado.

Ergue o mundo,
mas tropeça no silêncio
do quarto vazio.

Às vezes precisa
não de guerra,
mas de colo.

E de uma gemada quente,
doce como infância,
no copo da mãe.


- Daniel André

11 de setembro de 2025

O Falso Patriota

 













Clama em praça: “Eu amo o Brasil!”, mas mente,
beija a bandeira só pra posar na corrente.
Sonha com o dólar, despreza o real,
De joelhos aos gringos num culto servil e banal.

Aplaude tarifas que esmagam o povão,
Chama autoritarismo de “força da nação”.
Finge respeito à nossa soberania,
Mas vende o futuro com falsa valentia.

Brada contra ditaduras só quando convém,
Se for americana, aí já lhe parece um bem.
Defende bombardeios em nome da “liberdade”,
Trocando justiça por crua desigualdade.

Prega patriotismo em tom moralista,
Mas age qual sócio do capital imperialista.
Herói de papel, farsante colonial,
Patriota de araque, vassalo imoral.


por Daniel André


7 de setembro de 2025

Sexo dos deuses

 












Na festa do cosmo, eles dançavam.
Deuses de todos os nomes, riam.
Ganesha beijou Maria na testa.
O vinho era luz.
O mistério: quem criou tudo?

Afrodite suspirou por Jesus.
E ele, tímido, corou.
Buda acenou para Oxóssi.
Os dois sorriram, em silêncio.
A música era eterna.

Yemanjá dançava com Poseidon.
Águas se abraçavam no chão.
Xangô brindou com Thor.
O trovão respondeu em eco.
O mar batia palmas.

Ísis trocou perfumes com Krishna.
O amor tinha mil braços.
Odin piscou para Oxum.
Rá brilhava nas janelas.
A noite era dia.

Maria riu de Dionísio.
Ele servia uvas, beijos, delírios.
Ganesha tocava tambor.
Eros atirava setas.
Até Hades esqueceu da morte.

No fim, silêncio.
Todos olharam o céu.
Quem criou o mundo?
Ninguém respondeu.
Todos se beijaram de novo.

 

Daniel André


2 de setembro de 2025

Desfile dos Ipês


 













as ruas estalam
um rastro de sol
despenca das copas

flores marcham
sem pernas
sem farda
só o vento como tambor

os postes piscam
como generais bêbados
aplaudindo o amarelo

pétalas pousam
na testa dos carros
transformando buzinas em pássaros

a cidade inteira
engole ouro em pó
e acorda sonhando que é árvore

 

— Daniel André