Antes que o galo ouse cantar,
a senhora desperta, sem avisar.
Sem relógio, sem demora,
com um sorriso, já faz a aurora.
Na penteadeira de outros carnavais,
espelho antigo, segredos demais.
Penteia os fios com calma e graça,
e prende a preguiça numa velha trança.
Com pó de arroz no rosto sereno,
se perfuma com leite ameno,
de rosas, sua flor predileta
deixa no ar a alma completa.
No fogão de lenha, café esquenta,
o dia começa, a vida esquenta.
Sandálias nos pés, xale no ombro,
e o tempo caminha no passo do assombro.
Com mãos que o tempo abençoa,
debulha o milho na palha boa.
Joga no terreiro, com leveza e arte,
e vê as galinhas ciscarem a parte.
Ao lado, o gato, guardião da rotina
miando preces pela esquina.
E lá vai ela, alma limpinha,
com terço nas mãos, rumo à igrejinha.
Reza baixinho a salve-rainha,
com olhos de fé, voz que se alinha.
E ao fim do dia, entre véus e véstias,
a senhora repousa, rainha das festas.
Daniel André
