Mais um dia se estende no peito,
amarro os cadarços, devagar,
cabeça baixa, alma em espelho,
pensamentos altos a tropeçar.
Pontuo a vida em interrogações,
vírgulas soltas, reticências vãs,
as exclamações gritam caladas,
como perguntas que não têm manhãs.
Nos nós que o tempo me deu,
amarro o mundo que me cabe
laços de um velho passarinheiro,
presas sutis que a memória sabe.
E enquanto luto com o cadarço,
desato outros nós: os da mente.
Em cada passo dado no espaço,
uma dúvida me empurra em frente.
Mais um dia e amarro os cadarços
como quem firma um pacto com o chão,
carrego nos pés essa rotina bendita
e um fio de esperança na mão.
Daniel André
