Sonhei alto.
Esqueci que a gravidade é filha da realidade.
Amanheceu na cidade grande.
Não ouço galos cantando.
Ouço sirenes miando
o choro mecânico da selva cinza.
Às quatro da manhã
são as buzinas que gritam.
Quem grita dorme?
Quem dorme, perde.
Perde o ponto, o tempo, o troco.
O malandro não dorme até tarde.
Ele vigia o caos,
vende sorte em papel amassado.
É o bicheiro da esquina,
com olhos de quem viu mais fim do que começo.
Troquei o cheiro de terra molhada
pelo perfume ácido do metrô lotado.
Lá, o silêncio era ouro.
Aqui, barulho é moeda de troca.
Na cidade grande,
ninguém tem tempo de se perder.
Então nos perdemos todos juntos,
no mesmo horário de pico.
Fui buscar futuro.
Ganhei um aluguel atrasado.
E um vizinho que canta sertanejo às três da manhã.
Sobrevivo.
Porque viver,
aparentemente, custa mais caro que sonhar.
— Daniel André