9 de abril de 2018

O outro lado da rua


Na rua detrás das evidências
buzinas não atormentam
a atmosfera de minha alma.

Rostos fabricados de enfeites
não analisam o meu,
escondido as multidões.

Ainda vejo pássaros,
a tranquilidade de um senhor na carroça
um cigarro de palha,
a silenciosa fumaça no chalé da minha mente,
e a intimidade, com minha solidão.



Daniel André

14 de fevereiro de 2018

Cinzas de carnaval



No rufo dos tambores
O carnaval aparecia
Inúmeras máscaras, fantasias
O suar banhava
Toda a alegria.
Amores e serpentinas
Cruzavam olhares
Êxtase da felicidade
Etílicos prazeres
que se desfaziam em gargalhadas.
Agora a quarta
é de cinzas
numa caixa de madeira
coberta de poeira
os confetes
e as lembranças da folia.

Daniel André 


4 de fevereiro de 2018

Na barba de todo homem


Na barba de todo homem
um guerreiro primitivo
em sua caverna particular
ermo
nem sempre combativo.

Imitação rupestre, 
desenhada
muito cheia ou com quase nada
expressão latente
da masculinidade.

Na barba de todo homem
um neandertal escondido
desejo de ser exclusivo,
o herói corajoso,
e apaixonado.

Daniel André

30 de outubro de 2016

Redemoinho


De qualquer forma,
o passado deve estar bem resolvido
para que não haja conflito
entre o presente e futuro.

Existem laços,
que não são amarrados
uma frase no muro: receberás um castigo!
É a insistência oposição
balança mental - razão e emoção,
roda cármica, que comanda o coração.

Uma tesoura corta o tempo,
fotografias e caligrafias escorrendo
minhas mãos vestem o meu rosto,
me protegem do redemoinho poluente
e as águas nascentes
ainda brotam em mim.

Daniel André

7 de maio de 2016

A caverna de mim

A entrada da caverna é estonteante
Encanta a alma e a retina
Hortênsias gentis, violetas receptivas, 
sensitivas.

No interior o mistério não amedronta
Com figuras rupestres pintadas a sangue
E incontáveis estalactites chorosas, 
intumescidas.

As estranhas formas de vida
Desconhecem o otimismo do sol
E abrigam uma triste escuridão, 
solidão.

A cegueira que me condiciona ao tato,
Faz-me privar da ilusória visão
O grito ecoante me dá rumo, 
sumo.

Nesse caminho, um fim
Abrilhantado por pedras preciosas
Lapidadas em um disfarçado sorriso, 
finjo.

Daniel André


28 de fevereiro de 2016

Zazen


O véu do oceano desconhecido
abre o céu das ocultas verdades
Nam myho rengue kyo
que chova generosidade.

A humanidade aflita
vão se perdendo uns aos outros
no elo da grande corrente
penso, rezo, ouço.

O arcabouço da vida
se desenvolve de uma simples muda
sou mais um ponto luminoso,
zazen, na mão de Buda.

Daniel André.



                                          Disco Outras Palavras - Caetano Veloso - Blues
 

16 de dezembro de 2015

Soldado ferido




Tiros e pedradas de ingratidão
vão causando rachaduras,
fendas enormes surgem
em minha égide de gentileza.
No campo de batalha,
Onde as botas de couro vozeiam,
e cordões umbilicais enforcam
Não há espaço para pieguices.
Nem todo adversário
consegue um tiro certeiro.
Até derrubo alguns,
em meu coração hospitaleiro.
Cansado de guerras sem motivos
eclodo a luz da razão
desarmo a aparente hostilidade.
Afogado por uma lágrima,
coração remendado feito pano velho
sigo de cabeça ereta,
punhos de fogo,

eu, soldado ferido.

Daniel André